Em uma noite de início de primavera, quando o céu ainda tem um calor frio e morto, há nuvens que escondem mais do que estrelas longínquas; antes, elas ocultam um deus que não posso ver. Meu coração cansado repousa no silêncio, enquanto o vento lá fora reproduz meus gritos suspensos. Duas coisas só me reservou o destino: uma moral inútil e o desassossego de pertencer a uma humanidade imoral. Tenho por esses dias arrastado pelas ruas um grande cansaço nos meus pés, e a minha alma, reduzida à poeira de meus sapatos, carrega uma grande preguiça moral de viver. Entre o que fui e sou, resta a linha tênue de não ser nada ou uma alegoria vaga de outra coisa qualquer. Pesa-me a consciência nos pés arrastados, como a rocha nos ombros de Sísifo. E, a despeito de tudo isso, continuo na tarefa inútil de rolar a vida sobre o monte da existência, certa do momento em que, chegando ao cume, o deus brincalhão irá empurrá-la monte abaixo outra vez.
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