quinta-feira, 1 de novembro de 2012

"O AVESSO DAS COISAS"*



Carlos, só Alguma Poesia tua
É que me Faz render o desejo do Ar
Neste Brejo das Almas chamado mundo
Onde, se eu fosse Raimundo,
Talvez eu tivesse solução.

Mas a Lição de Coisas que a vida me dá
(Claro Enigma no limiar das horas)
É tão inexata quanto A paixão Medida
E apenas se faz sabida
Quando tento Esquecer para Lembrar.

Nada se aprende num instante exato,
Tempo Vida Poesia, fado...
Nem mesmo O Amor Natural.
Amar se Aprende Amando,
Assim, devagarzinho, feito A Rosa do Povo
Crescendo no asfalto.

E Eu, etiqueta, rotulada, em busca do Menino Antigo
Que num Bom tempo viveu em mim
Aprendo nesta Poesia Errante,
Que O Avesso das Coisas pode ser
A única coisa direita e natural.

A minha história, Carlos,
Com meu Discurso de Primavera e Algumas Sombras
Que aparecem nela,
Repetiu a praga do teu anjo torto
E eu também fui ser gauche na vida.
(Alma no Corpo errado que Deus abandonou.)

E é mentira que Os Ombros Suportam o Mundo
(Eu nem me chamo Raimundo!)
E quando me perguntam: “E agora José?”
Tudo o que eu quero é tomar meu conhaque
E desvelar minha Nudez.
 
 
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*Homenagem aos 110 anos do poeta Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Duas Verdades Sobre o Amor

"(...) só aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o tempo, permanecer objeto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, ser sentido como tal.
Assim, nada há de mais tolo em amar do que se adaptar um ao outro,
de se polir um contra o outro,
e todo esse sistema interminável de concessões mútuas...
e, quanto mais os seres chegam ao extremo do refinamento,
tanto mais é danoso de se enxertar um sobre o outro, em nome do amor, de se transformar um em parasita do outro,
quando cada um deles deve se enraizar robustamente
em um solo particular, a fim de se tornar todo um mundo para o outro. (...)"

Lou Andreas-Salomé
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"Desejava duas coisas, a primeira era a possessão absoluta. A segunda era a lembrança absoluta que ele lhe queria deixar. Os homens sabem tão bem que o amor está votado à morte que trabalham pela memória desse amor durante todo o tempo que vivem. Ele queria deixar-lhe uma grande ideia de si mesmo a fim de que o seu amor fosse grande, definitivamente. Sabia, porém, agora, que ele próprio não era grande, que ela, mais cedo ou mais tarde, o viria a saber um dia, e que, em vez da recordação absoluta, seria para ele pelo menos a morte absoluta. A vitória, a única vitória seria reconhecer que o amor pode ser grande mesmo quando o amante o não é.

Mas ele ainda não estava preparado para essa terrível modéstia.

Levava consigo, gravada a ferro em brasa, a recordação desse rosto roído pela dor... É nesta época, aproximadamente, que ele perde a estima de si mesmo que até aí sempre o havia amparado... Inferior ao amor, ela tinha razão.

Pode-se amar estando a ferros, através das paredes de pedra espessa de vários metros, etc... Mas se uma parte do coração, por mais pequena que seja, estiver submetida ao dever, o amor verdadeiro torna-se impossível.

Ele imaginava um futuro de solidão e de sofrimento. E encontrava um prazer difícil nessas imaginações. Mas era por supor o sofrimento nobre e harmonioso. E na realidade imaginava assim um futuro sem sofrimento. Desde o instante em que a dor surgia, pelo contrário, já não havia vida.

Ele dizia-lhe que o amor dos homens é assim, uma vontade, não uma graça, e que ele próprio tinha de ser conquistado. Ele jurava-lhe que isso não era o amor.

Perdera tudo, até a solidão.

Ele gritava-lhe que isso era a morte para ele, mas este grito não a atingia. É que, no cimo da sua exigência, achava natural que ele morresse, pois que falhara.

Tudo deve ser perdoado, e sobretudo o fato de se existir. A existência acaba sempre por ser uma má ação.

Foi nesse dia que a perdi. A desgraça só mais tarde pareceu dar-se. Mas ele sabia que fora nesse dia. Para a conservar deveria nunca ter falhado. O rigor dela era de tal ordem que ele não podia cometer um único erro, dar mostras de uma só fraqueza.

De qualquer outro teria ela admitido isso, tinha-o admitido e admiti-lo-ia. Não dele. São os privilégios do amor.


Há uma honra no amor. Perdida ela, o amor nada é."

Albert Camus

sábado, 21 de abril de 2012

Bílis Negra

Em meu coração existe uma tristeza que quer sair,
Mas eu sou mais forte que ela
Eu falo “fica aí dentro,
Ninguém pode te ver”.


Em meu coração existe uma tristeza que quer sair,
Mas eu taco antidepressivos nela e bebo umas doses de cachaça
Eu falo “fique aí, você quer me pôr em apuros?
Você quer foder o meu Mestrado?
Quer atrapalhar meus relacionamentos?”


Em meu coração existe uma tristeza que quer sair,
Mas eu sou mais esperta,
Só a deixo sair de madrugada,
Quando todos estão dormindo.


Eu falo “sei que você está aí, então não me mostre tão infeliz”
Daí a ponho de volta, e ela ainda dói um pouco dentro de mim,
Mas eu não a deixo sair novamente.


Nós dormimos juntas desse jeito
Com nosso pacto secreto
E é pungente o bastante para fazer um homem querer morrer
Mas eu não posso, você pode?

Bluebird

                                                                   Charles Bukowski

There’s a bluebird in my heart that, wants to get out
but I’m too tough for him.
I say, stay in there, I’m not going
to let anybody see you.

there’s a bluebird in my heart that, wants to get out
but I pur whiskey on him and inhale cigarette smoke
and the whores and the bartenders and the grocery clerks
never know that he’s in there.


There’s a bluebird in my heart that, wants to get out
but I’m too tough for him
I say, stay down, do you want to mess me up?
you want to screw up the works?
you want to blow my book sales in Europe?

There’s a bluebird in my heart that, wants to get out
but I’m too clever,
I only let him out at night sometimes
when everybody’s asleep.

I say, I know that you’re there, so don’t be sad.
then I put him back, but he’s singing a little in there
I haven’t quite let him die.

And we sleep together like that
with our secret pact
and it’s nice enough to make a man weep
but I don’t weep, do you?

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

DO SENTIDO DA VIDA


Muitas teorias filosóficas tentam explicar ou compreender o sentido da vida. Tomo aqui como fundamento desta minha divagação os conceitos Schopenhaurianos e Nietzschianos de "vontade", que entendo (permitam-me os filósofos) como a raiz metafísica de toda realidade, em que a vontade seria o princípio fundamental da natureza. Para Schopenhauer a vontade é algo sem nenhuma meta ou finalidade, apenas um conceito irracional e inconsciente, independente da sua representação; no entanto, é esta vontade que anima a vida humana.

Em Nietzsche, temos um conceito de vontade amplificado, a chamada "vontade de potência", que consiste na força originária que rege o universo; o modo como se comporta aquilo que não pode ter finalidade ou sentido e que vive as custas de si mesmo.

É importante atentarmo-nos para os conceitos supracitados a fim de compreendermos a visão crítica que pretendo expor aqui. Diante dos conceitos de vontade propostos pelos filósofos (entenda-se "vontade", aqui, como fundamento da existência), pergunto-me: "a vida seria um acidente absurdo?" ou ainda: qual será o sentido da vida? Ao deperarmo-nos com o pensamento Schopenhauriano, concluímos que viver se resume apenas na objetivização da vontade, em que o real é em si mesmo cego e irracional. Fenômenos como política, cultura e tantas outras manifestações do ser humano são apenas representações da vontade primeva que compõe a essência da realidade, vontade esta que é vazia de significado, mas que ocorre devido a sua naturalidade inconsciente.

Portanto, admitir que a vida é um mero acidente absurdo, significa admitir que ela não parte dessa vontade natural inconsciente, mas de algo ou de alguma outra força criadora que tenha se enganado no "percurso criador", já que "acidente" pressupõe intencionalidade. A vida não é fruto de uma criação intencional ou do desvio dessa criação, mas da própria força originária de criação da vontade; da própria realidade das coisas.

Nietzsche vem corroborar esta ideia, não apenas quando confirma a vontade de potência como conceito vazio de finalidade ou sentido, mas também quando "nos lança ao eterno retorno"; o que o autor de Zaratustra faz é muito mais do que ressignificar o pensamento schopenhauriano, ele traz à tona uma discussão acerca de como a vontade fundamental da vida pode nos levar ao sentido da própria vida. Parece, à princípio, uma contradição do pensamento nietzschiano, mas o mergulho no eterno retorno torna possível esta conclusão. Os impulsos advindos da vontade de potência relacionam-se de diversos modos no universo e a todo o momento essa vontade faz surgir novas formas de vontades, a partir daí, o mundo apresenta-se como um devir, em que, a cada alteração segue-se uma outra; é um eterno vir-a-ser. Na visão de Nietzsche, o ser é devir porque está sempre se fazendo, sempre por fazer, resultando num processo eterno.

Fato é que, "o homem prefere querer o nada ao nada querer; a vontade de nada e a revolta contra as condições fundamentais da vida, ainda é vontade de potência, porque permite dar um sentido à vida e à própria vontade." O ser humano comum não se atenta a essas questões, pouco se lhe importa o sentido da vida, mas o sujeito de sensibilidade aguçada não se contenta em estar nesse mundo sem saber qual a sua razão; a vida haveria de ter um sentido? Schopenhauer diz que "viver é sofrer".

O simplório não tem a consciência do viver, ele apenas existe nesse mundo como outra coisa inanimada qualquer, mas o homem dado à sensibilidade, a quem Aristóteles chama de "indivíduo excelente e superior", sempre se questiona sobre o significado da vida, ele possui a consciência da ausência de sentido e, por isso, ele sofre tanto de uma melancolia profunda. Seria a "dor de ideia"?

Talvez seja apenas a consciência de que o único sentido da vida é o viver.

PERDAS E DESENCONTROS


Quantas vezes na nossa vida enfrentamos a perda de algo ou alguém que amamos? Quantos sonhos desfeitos? Quantos projetos irrealizados? Quantas pessoas mortas, ou simplesmente distantes? São acontecimentos dolorosos, mas comuns e recorrentes na vida de todo ser humano; a questão é: como lidamos com essas perdas? Freud faz uma discussão interessante a esse respeito no texto “Luto e Melancolia”. Pretendo aqui, fazer uma breve divagação (sim, é esta a palavra) sobre os conceitos de luto e melancolia e a forma como o sujeito lida com esses dois afetos, mais precisamente, estados da psiqué.

Segundo Freud, o luto é a reação à perda de um ente querido ou à perda de alguma abstração que tenha ocupado o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, no entanto, essas mesmas perdas produzem melancolia em algumas pessoas, em vez de luto; a diferença estaria em que, a melancolia causa um desânimo profundamente penoso, o sujeito perde o interesse pelo mundo externo, torna-se incapaz de amar e apresenta uma diminuição considerável, senão completa, dos sentimentos de auto-estima, culminando numa expectativa delirante de punição; enquanto no luto, embora estejam presentes o mesmo desânimo e desinteresse pelo mundo, não há a perturbação da auto-estima.

Não se faz necessário expor aqui o trabalho que o luto e a melancolia realizam, uma vez que o propósito é tão somente discorrer sobre os seus conceitos, contudo, há que se ressaltar a natureza das perdas que geram tais estados de alma. Enquanto o luto consiste numa perda de natureza real, ou seja, o objeto de amor não mais existe, na melancolia a perda é de natureza mais ideal, o objeto continua a existir, apenas não existe mais enquanto objeto de amor. Outra característica divergente entre a melancolia e o luto, que acredito ser a causa de toda a morbidez desse primeiro estado, é que no luto o sujeito sabe o que ou quem se perdeu, ao passo que na melancolia o sujeito sabe que se perdeu algo, mas não sabe e não pode, de modo consciente, perceber o que é esse objeto de amor. Permitam-me explicar; o sujeito até sabe o que ou quem se perdeu, mas não consegue ver o que de fato se perdeu nesse objeto, como se a pessoa amasse não o objeto em si mesmo, mas algo que esse objeto reflete ou representa; muito mais que uma perda consciente, existe uma perda inconsciente, diferentemente do luto em que a perda é apenas consciente.

Acredito que essa diferença se dá pelo fato de haver uma transferência, ou seja, na melancolia o sujeito identifica-se com o objeto, embora Freud não afirme isso explicitamente (são palavras minhas, corretas ou não, e por isso chamo de “divagação”); meu argumento está em que, no luto é o mundo que se torna vazio, e na melancolia o próprio ego se torna vazio, o ego e o objeto de amor se tornam um só, portanto, quando se perde o objeto, o próprio “eu” se perde. Dessa forma, as auto-acusações que o sujeito melancólico faz a si mesmo se tratam de acusações feitas a um objeto amado perdido, que foram deslocadas desse objeto para o próprio ego.

Para explicitar melhor, faço uma breve tentativa de reconstruir o processo que ocorre desde a escolha do objeto amado a sua perda. Num dado momento, ocorre uma escolha objetal, em que a libido é totalmente direcionada ao objeto de amor, proporcionando uma ligação libidinal, porém, devido a uma decepção proveniente desse objeto, a relação libidinal sujeito-objeto amado acaba por se destruir. O normal após essa quebra libidinal seria uma retirada da libido desse objeto e seu deslocamento para um novo objeto de amor (é praticamente esse o trabalho que o luto faz), contudo, na melancolia a libido se desloca para o ego e não para um novo objeto, provocando assim os sentimentos de auto-acusação e auto-punição, que muitas vezes resultam no suicídio.

Não é uma tarefa fácil resolver estes conflitos psicológicos após uma perda, alguns superam e conseguem eleger um novo objeto de amor, outros, infelizmente, encontram o suicídio como saída, e há aqueles que, embora não sejam capazes de deslocar a libido para um novo objeto, encontram formas de sublimar os sentimentos de auto-recriminação; uns na música, alguns na pintura, outros na literatura, em suma, a arte é perfeita forma de sublimação. Eu encontro meios de sobreviver nas divagações que faço por aqui... mas, como eu sempre digo, são apenas divagações, o importante é sobreviver!

O APOCALIPSE DO SEM-SENTIDO


Haverá o dia em que as ostras comerão os caracóis em suas cascas, como irmãos de infortúnio que são. Tudo há de se transformar, e o próprio Universo há de se tornar alguma coisa muito diferente do que é hoje em dia. Eis o apocalipse do sem-sentido.

Quando estamos todos à beira de um caos sem precedentes, o importante é que os caramujos abstenham-se de discussões infundadas sobre a arte e o processo criativo, pois isso não os levará a nada além de um tédio enorme e triste. Ademais, que criação pode insurgir de seres nojentos? Que sabe a lesma ou os porcos sobre a arte? Resta-lhes que filosofia, além da filosofia que nos deixam? Os caramujos passam gosmentos pelo chão e deixam rastros brilhantes, como pegadas de um sucesso passado, mas o que eles sabem sobre a filosofia da gosma que fica? Sua filosofia é não ter filosofia, como tudo que há. O homem, invejoso de ser bicho, filosofa, cria verdades sobre as coisas, significações para uma gosma que nada significa, cria impressões sobre uma realidade inerte e mergulha no profundo tédio do sem-sentido.

Mas, por hora, os tempos continuam os mesmos. A arte não serve para os caramujos e nem mesmo para as lesmas, que continuam traçando caminhos luminosos no chão do mundo, sem atentarem para o fato de que sempre haverá alguém com um pincel na mão, pronto para retratá-los. E ao retratá-los, lesmas e caramujos sentirão em suas entranhas aqüosas que estão sendo objeto de observação de alguém ou de alguma coisa que até então permanecera insuspeitada e, ao atingirem a consciência disso, serão prisioneiros da vida e da arte.

Esperamos que não se curvem a esta tirania desesperada que tentam impor-lhes. Deus estará com eles nas catacumbas da insônia. E com a ajuda divina libertar-se-ão do mundo da arte. As correntes que os prendem serão quebradas e os pobres caramujos e as tristes lesmas estarão vazios de significados. Tomarão para si a responsabilidade de serem tão somente caramujos e lesmas. E tudo o mais que seja humano será apenas impressões do transcendente.

Perguntar-se-ão se lesmas viram borboletas. E irão ouvir um relativo “quem sabe”, talvez no melhor dos mundos isso possa acontecer, talvez dentro dos livros ou dos quadros ou nas igrejas de orientação natural. Se isso for possível. Se lesmas e borboletas fizerem parte de uma mesma origem. Desejarei também o melhor dos mundos. Ansiarei pelos livros e pelos quadros. Mas odiarei as igrejas que assassinam a liberdade do homem. E, qual uma lesma com asas, serei também capaz de voar ... rumo à liberdade das significações.