domingo, 6 de outubro de 2013

MICROCONTO - O ESPANTALHO DE PORTINARI

Numa noite de muito frio, vento e chuva, havia um espantalho lá fora, sofrendo tudo isso.


DESASSOSSEGOS DA NOITE INTERIOR


Em uma noite de início de primavera, quando o céu ainda tem um calor frio e morto, há nuvens que escondem mais do que estrelas longínquas; antes, elas ocultam um deus que não posso ver. Meu coração cansado repousa no silêncio, enquanto o vento lá fora reproduz meus gritos suspensos. Duas coisas só me reservou o destino: uma moral inútil e o desassossego de pertencer a uma humanidade imoral. Tenho por esses dias arrastado pelas ruas um grande cansaço nos meus pés, e a minha alma, reduzida à poeira de meus sapatos, carrega uma grande preguiça moral de viver. Entre o que fui e sou, resta a linha tênue de não ser nada ou uma alegoria vaga de outra coisa qualquer. Pesa-me a consciência nos pés arrastados, como a rocha nos ombros de Sísifo. E, a despeito de tudo isso, continuo na tarefa inútil de rolar a vida sobre o monte da existência, certa do momento em que, chegando ao cume, o deus brincalhão irá empurrá-la monte abaixo outra vez.

A TRÁGICA HISTÓRIA DA (DES)HUMANIDADE

Houve um tempo em que pessoas inocentes foram queimadas em fogueiras porque buscavam o conhecimento. Foram condenadas por serem contrárias ao que chamam de “doutrina cristã”. Houve um tempo em que homens e mulheres foram queimados porque usavam plantas medicinais aliadas a práticas espirituais ditas pagãs como forma de cura. Foram conde...nados à morte por bruxaria. Houve um tempo em que negros foram retirados de suas terras, traficados e escravizados porque, segundo a Igreja, não eram gente; não tinham alma. Houve um tempo em que até fingiram aceitar que os negros eram seres humanos, mas os privaram de uma vida digna, e eles foram obrigados a viver separados dos brancos, à margem da sociedade. Houve um tempo em que mulheres eram tratadas como objeto sexual e reprodutivo e não tinham outro valor na sociedade. Houve um tempo em que viúvas eram tratadas como lixo, só porque cometeram o pecado de sobreviver ao marido. Houve um tempo em que mulheres divorciadas eram marginalizadas e não podiam sair à rua sem serem taxadas de putas. Houve um tempo em que negros, homossexuais, deficientes e velhos foram covardemente assassinados por serem considerados a escória da humanidade. Nesse mesmo tempo, milhões de judeus foram mortos por serem considerados uma raça inferior. Houve um tempo em que a dita Palavra de Deus foi utilizada para justificar as maiores atrocidades que a humanidade poderia cometer. Em nome de Deus, guerras são travadas. Em nome de Deus, seres humanos são descartados. E agora, em nome Deus, querem voltar ao tempo em que negros eram tratados como bichos, mulheres como lixo, e homossexuais como escória. Cegos, os homens se deixam guiar pelos maus que tampouco podem ver. Ignorantes, os homens se deixam representar pelos maus que tampouco sabem. E haverá um tempo em que tudo que nos restará será a nossa desumanidade. Em nome de Deus.

domingo, 16 de junho de 2013

QUANDO A ALEGRIA ACABA

A minha alma é cheia de vazios e silêncios
onde gritos suspensos calam o meu sentir.
Nada em mim fala quando a tristeza chega.
Tudo em mim cala quando a tristeza vai.
E minha alma, de solidões composta,
vai tomando tudo como coisa natural.
Dentro de minha alma há caminhos diversos
que levam a uma mesma direção:
abismo secreto onde o nada é a única voz.
Minha tristeza é a consciência da alegria
e minha alegria é uma consciência que passa.
Quando a alegria acaba
Restam-me os murmúrios do nada.
E de tudo fica aquela vaga impressão
de que eu poderia ter sido feliz
Se desse tempo.

METALINGUAGEM OU CARTAS INACABADAS

Preciso escrever uma carta, mas as palavras se sufocam na garganta de minha caneta. É que se faz difícil dizer, sobretudo quando o que digo não pode fazer a mínima diferença. Certa vez, indiretamente, me disseram que eu deveria começar uma carta assim: - "tocando na dificuldade real de se escrever uma carta" -, eu então pensei: oras, quem teria dificuldades de escrever uma carta?! ... realmente pensei... até agora... até me dar conta de que algumas coisas simples também podem ser complicadas, e que o exercício de uma carta pode se transformar numa grande epopeia homérica - nesse caso, encontro-me em desvantagem, pois me faltam as musas inspiradoras e o feito heroico que contar. Se eu concluísse uma carta, faria uma epopeia sobre o grande feito heroico de se concluir uma carta. Mas, realmente me parece uma odisseia ter que escrever. Dizer as palavras certas do  jeito errado é tão inútil quanto dizer as palavras erradas do jeito certo, e eu, que não sou versada em coisas certas a dizer e muito menos no modo como devem ser ditas, acabo por abortar minhas falas pela metade. Gagueira permanente no bico da caneta resulta em cartas inacabadas esquecidas em velhas caixas. Eu guardo muitas gagueiras em caixas empoeiradas. Entulho de palavras que se negam a dizer. Certa vez, em determinada carta, eu disse que a urgência da palavra é lâmina cortante em tempos de mudez; aqui, no entanto, os tempos de mudez é que se transformaram em lâminas cortantes da palavra. E nesta dúvida de como dizer o que dizer, as cartas inacabadas se encaixotaram sem pertencimentos. Penso. Se por um lado uma carta ainda por remeter pertence ao autor, a quem pertenceria uma carta já remetida? Lejeune me responde que pertenceria ao destinatário. Mas, a questão aqui é mais sobre a propriedade do discurso do que a posse do objeto-carta. Então, mesmo neste segundo caso, o autor ainda seria o proprietário absoluto da carta, porque o seu discurso lhe pertence. No meu caso, que me perdoe Lejeune, as cartas inacabadas me pertencem sem serem minhas. Guardadas em caixas empoeiradas, elas viram entulho de palavras, propriedade de ninguém, a menos que sejam concluídas e enviadas. Concluir uma carta, nestes tempos de mudez, seria para mim como aportar em Ítaca, e dizer as palavras certas do modo certo seria mais ou menos a certeza de encontrar Penélope a minha espera. Seria um alento saber que nos tempos de muda ausência ela esteve a desfazer o tapete das palavras erradas.

CIDADE PSICANALÍTICA



Vira de longe os pontos luminosos dentre os caixotes de concreto. A luz da lua fazia o quadro de fundo de sua visão. Maravilhou-se. não sabia se os pontos de luz eram mesmo pontos ou se faziam notas musicais em partitura invisível. Não desejava saber. Apenas fechou os olhos e entregou-se à sinfonia. E a cidade moderna, tal qual a que Baudelaire soube cantar divinamente, fazia-se música em hora crepuscular, em que os automóveis e os trens com barulho histérico impeliam sua modernidade.

Texto: Elaine Maciel
Fotografia: Vanessa Deguti - SP

CONTRADIÇÃO



A solidão soluça
no meu peito afora
uma voz amarga
na memória

"s e r   t ã o   s ó
 sempre serás"

E lágrimas quentes
de sol ardente
que brilha negro
no nascer d'aurora
e
  s
    c
      o
         r
           r
             e
               m
               frias
no surgir do dia
queimando a noite
que gela em mim.

   D                 M      
     e              e
         r        t
           r   e

             a
        calma
no calor da alma
feito estalactites
        a cair

tão certeiras e afiadas
que trespassam da noite
à madrugada
ferindo bem fundo
o coração.

E a dor que há muito
não sentia, de repente
transforma-se em poesia

      na contradição
    do meu s e r t ã o.