Numa noite de muito frio, vento e chuva, havia um espantalho lá fora, sofrendo tudo isso.
S E R T Ã O S Ó
Literatura. Psicanálise. Filosofia. Fotografia. E Arte.
domingo, 6 de outubro de 2013
DESASSOSSEGOS DA NOITE INTERIOR
Em uma noite de início de primavera, quando o céu ainda tem um calor frio e morto, há nuvens que escondem mais do que estrelas longínquas; antes, elas ocultam um deus que não posso ver. Meu coração cansado repousa no silêncio, enquanto o vento lá fora reproduz meus gritos suspensos. Duas coisas só me reservou o destino: uma moral inútil e o desassossego de pertencer a uma humanidade imoral. Tenho por esses dias arrastado pelas ruas um grande cansaço nos meus pés, e a minha alma, reduzida à poeira de meus sapatos, carrega uma grande preguiça moral de viver. Entre o que fui e sou, resta a linha tênue de não ser nada ou uma alegoria vaga de outra coisa qualquer. Pesa-me a consciência nos pés arrastados, como a rocha nos ombros de Sísifo. E, a despeito de tudo isso, continuo na tarefa inútil de rolar a vida sobre o monte da existência, certa do momento em que, chegando ao cume, o deus brincalhão irá empurrá-la monte abaixo outra vez.
A TRÁGICA HISTÓRIA DA (DES)HUMANIDADE
Houve um tempo em que pessoas inocentes foram queimadas em fogueiras porque buscavam o conhecimento. Foram condenadas por serem contrárias ao que chamam de “doutrina cristã”. Houve um tempo em que homens e mulheres foram queimados porque usavam plantas medicinais aliadas a práticas espirituais ditas pagãs como forma de cura. Foram conde...nados à morte por bruxaria. Houve um tempo em que negros foram retirados de suas terras, traficados e escravizados porque, segundo a Igreja, não eram gente; não tinham alma. Houve um tempo em que até fingiram aceitar que os negros eram seres humanos, mas os privaram de uma vida digna, e eles foram obrigados a viver separados dos brancos, à margem da sociedade. Houve um tempo em que mulheres eram tratadas como objeto sexual e reprodutivo e não tinham outro valor na sociedade. Houve um tempo em que viúvas eram tratadas como lixo, só porque cometeram o pecado de sobreviver ao marido. Houve um tempo em que mulheres divorciadas eram marginalizadas e não podiam sair à rua sem serem taxadas de putas. Houve um tempo em que negros, homossexuais, deficientes e velhos foram covardemente assassinados por serem considerados a escória da humanidade. Nesse mesmo tempo, milhões de judeus foram mortos por serem considerados uma raça inferior. Houve um tempo em que a dita Palavra de Deus foi utilizada para justificar as maiores atrocidades que a humanidade poderia cometer. Em nome de Deus, guerras são travadas. Em nome de Deus, seres humanos são descartados. E agora, em nome Deus, querem voltar ao tempo em que negros eram tratados como bichos, mulheres como lixo, e homossexuais como escória. Cegos, os homens se deixam guiar pelos maus que tampouco podem ver. Ignorantes, os homens se deixam representar pelos maus que tampouco sabem. E haverá um tempo em que tudo que nos restará será a nossa desumanidade. Em nome de Deus.
domingo, 16 de junho de 2013
QUANDO A ALEGRIA ACABA
A
minha alma é cheia de vazios e silêncios
onde gritos suspensos calam o meu sentir.
Nada em mim fala quando a tristeza chega.
Tudo em mim cala quando a tristeza vai.
E minha alma, de solidões composta,
vai tomando tudo como coisa natural.
Dentro de minha alma há caminhos diversos
que levam a uma mesma direção:
abismo secreto onde o nada é a única voz.
Minha tristeza é a consciência da alegria
e minha alegria é uma consciência que passa.
Quando a alegria acaba
Restam-me os murmúrios do nada.
E de tudo fica aquela vaga impressão
de que eu poderia ter sido feliz
Se desse tempo.
onde gritos suspensos calam o meu sentir.
Nada em mim fala quando a tristeza chega.
Tudo em mim cala quando a tristeza vai.
E minha alma, de solidões composta,
vai tomando tudo como coisa natural.
Dentro de minha alma há caminhos diversos
que levam a uma mesma direção:
abismo secreto onde o nada é a única voz.
Minha tristeza é a consciência da alegria
e minha alegria é uma consciência que passa.
Quando a alegria acaba
Restam-me os murmúrios do nada.
E de tudo fica aquela vaga impressão
de que eu poderia ter sido feliz
Se desse tempo.
METALINGUAGEM OU CARTAS INACABADAS
Preciso escrever uma carta, mas as
palavras se sufocam na garganta de minha caneta. É que se faz difícil
dizer, sobretudo quando o que digo não pode fazer a mínima diferença.
Certa vez, indiretamente, me disseram que eu deveria começar uma carta assim: -
"tocando na dificuldade real de se escrever uma carta" -, eu então
pensei: oras, quem teria dificuldades de escrever uma carta?! ... realmente
pensei... até agora... até me dar conta de que algumas coisas simples também
podem ser complicadas, e que o exercício de uma carta pode se transformar
numa grande epopeia homérica - nesse caso, encontro-me em desvantagem,
pois me faltam as musas inspiradoras e o feito heroico que contar. Se
eu concluísse uma carta, faria uma epopeia sobre o grande feito heroico de se concluir
uma carta. Mas, realmente me parece uma odisseia ter que escrever. Dizer as
palavras certas do jeito errado é tão inútil quanto dizer as palavras
erradas do jeito certo, e eu, que não sou versada em coisas certas a dizer
e muito menos no modo como devem ser ditas, acabo por abortar minhas falas pela
metade. Gagueira permanente no bico da caneta resulta em cartas
inacabadas esquecidas em velhas caixas. Eu guardo muitas gagueiras em
caixas empoeiradas. Entulho de palavras que se negam a dizer. Certa vez, em
determinada carta, eu disse que a urgência da palavra é lâmina cortante em
tempos de mudez; aqui, no entanto, os tempos de mudez é que se
transformaram em lâminas cortantes da palavra. E nesta dúvida de como
dizer o que dizer, as cartas inacabadas se encaixotaram sem pertencimentos.
Penso. Se por um lado uma carta ainda por remeter pertence ao autor, a quem
pertenceria uma carta já remetida? Lejeune me responde
que pertenceria ao destinatário. Mas, a questão aqui é mais sobre a
propriedade do discurso do que a posse do objeto-carta. Então, mesmo neste
segundo caso, o autor ainda seria o proprietário absoluto da carta, porque
o seu discurso lhe pertence. No meu caso, que me perdoe Lejeune, as
cartas inacabadas me pertencem sem serem minhas. Guardadas em caixas
empoeiradas, elas viram entulho de palavras, propriedade de ninguém, a
menos que sejam concluídas e enviadas. Concluir uma carta, nestes tempos de
mudez, seria para mim como aportar em Ítaca, e dizer as palavras certas do
modo certo seria mais ou menos a certeza de encontrar Penélope a minha espera.
Seria um alento saber que nos tempos de muda ausência ela esteve a
desfazer o tapete das palavras erradas.
CIDADE PSICANALÍTICA
Vira de longe os pontos luminosos dentre os
caixotes de concreto. A luz da lua fazia o quadro de fundo de sua visão.
Maravilhou-se. não sabia se os pontos de luz eram mesmo pontos ou se faziam
notas musicais em partitura invisível. Não desejava saber. Apenas fechou os
olhos e entregou-se à sinfonia. E a cidade moderna, tal qual a que
Baudelaire soube cantar divinamente, fazia-se música em hora crepuscular, em
que os automóveis e os trens com barulho histérico impeliam sua modernidade.
Texto: Elaine Maciel
Fotografia: Vanessa Deguti - SP
Fotografia: Vanessa Deguti - SP
CONTRADIÇÃO
A solidão soluça
no meu peito afora
uma voz amarga
na memória
"s e r t ã o s ó
sempre serás"
E lágrimas quentes
de sol ardente
que brilha negro
no nascer d'aurora
e
s
c
o
r
r
e
m
frias
no surgir do dia
queimando a noite
que gela em mim.
D M
e e
r t
r e
a
calma
no calor da alma
feito estalactites
a cair
tão certeiras e afiadas
que trespassam da noite
à madrugada
ferindo bem fundo
o coração.
E a dor que há muito
não sentia, de repente
transforma-se em poesia
na contradição
do meu s e r t ã o.
no meu peito afora
uma voz amarga
na memória
"s e r t ã o s ó
sempre serás"
E lágrimas quentes
de sol ardente
que brilha negro
no nascer d'aurora
e
s
c
o
r
r
e
m
frias
no surgir do dia
queimando a noite
que gela em mim.
D M
e e
r t
r e
a
calma
no calor da alma
feito estalactites
a cair
tão certeiras e afiadas
que trespassam da noite
à madrugada
ferindo bem fundo
o coração.
E a dor que há muito
não sentia, de repente
transforma-se em poesia
na contradição
do meu s e r t ã o.
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
"O AVESSO DAS COISAS"*
Carlos, só Alguma Poesia tua
É que me Faz render o desejo do Ar
Neste Brejo das Almas chamado mundo
Onde, se eu fosse Raimundo,
Talvez eu tivesse solução.
Mas a Lição de Coisas que a vida me dá
(Claro Enigma no limiar das horas)
É tão inexata quanto A paixão Medida
E apenas se faz sabida
Quando tento Esquecer para Lembrar.
Nada se aprende num instante exato,
Tempo Vida Poesia, fado...
Nem mesmo O Amor Natural.
Amar se Aprende Amando,
Assim, devagarzinho, feito A Rosa do Povo
Crescendo no asfalto.
E Eu, etiqueta, rotulada, em busca do Menino Antigo
Que num Bom tempo viveu em mim
Aprendo nesta Poesia Errante,
Que O Avesso das Coisas pode ser
A única coisa direita e natural.
A minha história, Carlos,
Com meu Discurso de Primavera e Algumas Sombras
Que aparecem nela,
Repetiu a praga do teu anjo torto
E eu também fui ser gauche na vida.
(Alma no Corpo errado que Deus abandonou.)
E é mentira que Os Ombros Suportam o Mundo
(Eu nem me chamo Raimundo!)
E quando me perguntam: “E agora José?”
Tudo o que eu quero é tomar meu conhaque
E desvelar minha Nudez.
Mas a Lição de Coisas que a vida me dá
(Claro Enigma no limiar das horas)
É tão inexata quanto A paixão Medida
E apenas se faz sabida
Quando tento Esquecer para Lembrar.
Nada se aprende num instante exato,
Tempo Vida Poesia, fado...
Nem mesmo O Amor Natural.
Amar se Aprende Amando,
Assim, devagarzinho, feito A Rosa do Povo
Crescendo no asfalto.
E Eu, etiqueta, rotulada, em busca do Menino Antigo
Que num Bom tempo viveu em mim
Aprendo nesta Poesia Errante,
Que O Avesso das Coisas pode ser
A única coisa direita e natural.
A minha história, Carlos,
Com meu Discurso de Primavera e Algumas Sombras
Que aparecem nela,
Repetiu a praga do teu anjo torto
E eu também fui ser gauche na vida.
(Alma no Corpo errado que Deus abandonou.)
E é mentira que Os Ombros Suportam o Mundo
(Eu nem me chamo Raimundo!)
E quando me perguntam: “E agora José?”
Tudo o que eu quero é tomar meu conhaque
E desvelar minha Nudez.
_______________________________
*Homenagem aos 110 anos do poeta Carlos Drummond de Andrade
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Duas Verdades Sobre o Amor
"(...) só aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o tempo,
permanecer objeto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a
vida, ser sentido como tal.
Assim, nada há de mais tolo em amar do que se adaptar um ao outro,
de se polir um contra o outro,
e todo esse sistema interminável de concessões mútuas...
e, quanto mais os seres chegam ao extremo do refinamento,
tanto mais é danoso de se enxertar um sobre o outro, em nome do amor, de se transformar um em parasita do outro,
quando cada um deles deve se enraizar robustamente
em um solo particular, a fim de se tornar todo um mundo para o outro. (...)"
Lou Andreas-Salomé
______________________________________________
Há uma honra no amor. Perdida ela, o amor nada é."
Albert Camus
Assim, nada há de mais tolo em amar do que se adaptar um ao outro,
de se polir um contra o outro,
e todo esse sistema interminável de concessões mútuas...
e, quanto mais os seres chegam ao extremo do refinamento,
tanto mais é danoso de se enxertar um sobre o outro, em nome do amor, de se transformar um em parasita do outro,
quando cada um deles deve se enraizar robustamente
em um solo particular, a fim de se tornar todo um mundo para o outro. (...)"
Lou Andreas-Salomé
______________________________________________
"Desejava duas coisas, a primeira era a possessão absoluta. A
segunda era a lembrança absoluta que ele lhe queria deixar. Os homens sabem tão
bem que o amor está votado à morte que trabalham pela memória desse amor durante
todo o tempo que vivem. Ele queria deixar-lhe uma grande ideia de si mesmo a fim
de que o seu amor fosse grande, definitivamente. Sabia, porém, agora, que ele
próprio não era grande, que ela, mais cedo ou mais tarde, o viria a saber um
dia, e que, em vez da recordação absoluta, seria para ele pelo menos a morte
absoluta. A vitória, a única vitória seria reconhecer que o amor pode ser grande
mesmo quando o amante o não é.
Mas ele ainda não estava preparado para essa terrível modéstia.
Levava consigo, gravada a ferro em brasa, a recordação desse rosto roído pela dor... É nesta época, aproximadamente, que ele perde a estima de si mesmo que até aí sempre o havia amparado... Inferior ao amor, ela tinha razão.
Pode-se amar estando a ferros, através das paredes de pedra espessa de vários metros, etc... Mas se uma parte do coração, por mais pequena que seja, estiver submetida ao dever, o amor verdadeiro torna-se impossível.
Ele imaginava um futuro de solidão e de sofrimento. E encontrava um prazer difícil nessas imaginações. Mas era por supor o sofrimento nobre e harmonioso. E na realidade imaginava assim um futuro sem sofrimento. Desde o instante em que a dor surgia, pelo contrário, já não havia vida.
Ele dizia-lhe que o amor dos homens é assim, uma vontade, não uma graça, e que ele próprio tinha de ser conquistado. Ele jurava-lhe que isso não era o amor.
Perdera tudo, até a solidão.
Ele gritava-lhe que isso era a morte para ele, mas este grito não a atingia. É que, no cimo da sua exigência, achava natural que ele morresse, pois que falhara.
Tudo deve ser perdoado, e sobretudo o fato de se existir. A existência acaba sempre por ser uma má ação.
Foi nesse dia que a perdi. A desgraça só mais tarde pareceu dar-se. Mas ele sabia que fora nesse dia. Para a conservar deveria nunca ter falhado. O rigor dela era de tal ordem que ele não podia cometer um único erro, dar mostras de uma só fraqueza.
De qualquer outro teria ela admitido isso, tinha-o admitido e admiti-lo-ia. Não dele. São os privilégios do amor.
Mas ele ainda não estava preparado para essa terrível modéstia.
Levava consigo, gravada a ferro em brasa, a recordação desse rosto roído pela dor... É nesta época, aproximadamente, que ele perde a estima de si mesmo que até aí sempre o havia amparado... Inferior ao amor, ela tinha razão.
Pode-se amar estando a ferros, através das paredes de pedra espessa de vários metros, etc... Mas se uma parte do coração, por mais pequena que seja, estiver submetida ao dever, o amor verdadeiro torna-se impossível.
Ele imaginava um futuro de solidão e de sofrimento. E encontrava um prazer difícil nessas imaginações. Mas era por supor o sofrimento nobre e harmonioso. E na realidade imaginava assim um futuro sem sofrimento. Desde o instante em que a dor surgia, pelo contrário, já não havia vida.
Ele dizia-lhe que o amor dos homens é assim, uma vontade, não uma graça, e que ele próprio tinha de ser conquistado. Ele jurava-lhe que isso não era o amor.
Perdera tudo, até a solidão.
Ele gritava-lhe que isso era a morte para ele, mas este grito não a atingia. É que, no cimo da sua exigência, achava natural que ele morresse, pois que falhara.
Tudo deve ser perdoado, e sobretudo o fato de se existir. A existência acaba sempre por ser uma má ação.
Foi nesse dia que a perdi. A desgraça só mais tarde pareceu dar-se. Mas ele sabia que fora nesse dia. Para a conservar deveria nunca ter falhado. O rigor dela era de tal ordem que ele não podia cometer um único erro, dar mostras de uma só fraqueza.
De qualquer outro teria ela admitido isso, tinha-o admitido e admiti-lo-ia. Não dele. São os privilégios do amor.
Há uma honra no amor. Perdida ela, o amor nada é."
Albert Camus
sábado, 21 de abril de 2012
Bílis Negra
Em meu coração existe uma tristeza que
quer sair,
Mas eu sou mais forte que ela
Eu falo “fica aí dentro,
Ninguém pode te ver”.
Eu falo “fique aí, você quer me pôr em apuros?
Você quer foder o meu Mestrado?
Quer atrapalhar meus relacionamentos?”
Só a deixo sair de madrugada,
Quando todos estão dormindo.
Mas eu não a deixo sair novamente.
E é pungente o bastante para fazer um homem querer morrer
Mas eu não posso, você pode?
Mas eu sou mais forte que ela
Eu falo “fica aí dentro,
Ninguém pode te ver”.
Em meu coração existe uma tristeza que
quer sair,
Mas eu taco antidepressivos nela e bebo
umas doses de cachaçaEu falo “fique aí, você quer me pôr em apuros?
Você quer foder o meu Mestrado?
Quer atrapalhar meus relacionamentos?”
Em meu coração existe uma tristeza que
quer sair,
Mas eu sou mais esperta,Só a deixo sair de madrugada,
Quando todos estão dormindo.
Eu falo “sei que você está aí, então não
me mostre tão infeliz”
Daí a ponho de volta, e ela ainda dói um
pouco dentro de mim,Mas eu não a deixo sair novamente.
Nós dormimos juntas desse jeito
Com nosso pacto secretoE é pungente o bastante para fazer um homem querer morrer
Mas eu não posso, você pode?
Bluebird
Charles Bukowski
There’s a bluebird in my heart that, wants to get out
but I’m too tough for him.
I say, stay in there, I’m not going
to let anybody see you.
there’s a bluebird in my heart that, wants to get out
but I pur whiskey on him and inhale cigarette smoke
and the whores and the bartenders and the grocery clerks
never know that he’s in there.
There’s a bluebird in my heart that, wants to get out
but I’m too tough for him
I say, stay down, do you want to mess me up?
you want to screw up the works?
you want to blow my book sales in Europe?
There’s a bluebird in my heart that, wants to get out
but I’m too clever,
I only let him out at night sometimes
when everybody’s asleep.
I say, I know that you’re there, so don’t be sad.
then I put him back, but he’s singing a little in there
I haven’t quite let him die.
And we sleep together like that
with our secret pact
and it’s nice enough to make a man weep
but I don’t weep, do you?
There’s a bluebird in my heart that, wants to get out
but I’m too tough for him.
I say, stay in there, I’m not going
to let anybody see you.
there’s a bluebird in my heart that, wants to get out
but I pur whiskey on him and inhale cigarette smoke
and the whores and the bartenders and the grocery clerks
never know that he’s in there.
There’s a bluebird in my heart that, wants to get out
but I’m too tough for him
I say, stay down, do you want to mess me up?
you want to screw up the works?
you want to blow my book sales in Europe?
There’s a bluebird in my heart that, wants to get out
but I’m too clever,
I only let him out at night sometimes
when everybody’s asleep.
I say, I know that you’re there, so don’t be sad.
then I put him back, but he’s singing a little in there
I haven’t quite let him die.
And we sleep together like that
with our secret pact
and it’s nice enough to make a man weep
but I don’t weep, do you?
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
DO SENTIDO DA VIDA
Muitas teorias filosóficas tentam explicar ou compreender o sentido da
vida. Tomo aqui como fundamento desta minha divagação os conceitos
Schopenhaurianos e Nietzschianos de "vontade", que entendo
(permitam-me os filósofos) como a raiz metafísica de toda realidade, em que a
vontade seria o princípio fundamental da natureza. Para Schopenhauer a vontade
é algo sem nenhuma meta ou finalidade, apenas um conceito irracional e
inconsciente, independente da sua representação; no entanto, é esta vontade que
anima a vida humana.
Em Nietzsche, temos um conceito de vontade amplificado, a chamada
"vontade de potência", que consiste na força originária que rege o
universo; o modo como se comporta aquilo que não pode ter finalidade ou sentido
e que vive as custas de si mesmo.
É importante atentarmo-nos para os conceitos supracitados a fim de
compreendermos a visão crítica que pretendo expor aqui. Diante dos conceitos de
vontade propostos pelos filósofos (entenda-se "vontade", aqui, como
fundamento da existência), pergunto-me: "a
vida seria um acidente absurdo?" ou ainda: qual será o sentido da vida? Ao deperarmo-nos com o pensamento Schopenhauriano, concluímos que
viver se resume apenas na objetivização da vontade, em que o real é em si mesmo
cego e irracional. Fenômenos como política, cultura e tantas outras
manifestações do ser humano são apenas representações da vontade primeva que
compõe a essência da realidade, vontade esta que é vazia de significado, mas
que ocorre devido a sua naturalidade inconsciente.
Portanto, admitir que a vida é um mero acidente absurdo, significa
admitir que ela não parte dessa vontade natural inconsciente, mas de algo ou de
alguma outra força criadora que tenha se enganado no "percurso
criador", já que "acidente" pressupõe intencionalidade. A vida
não é fruto de uma criação intencional ou do desvio dessa criação, mas da própria
força originária de criação da vontade; da própria realidade das coisas.
Nietzsche vem corroborar esta ideia, não apenas quando confirma a
vontade de potência como conceito vazio de finalidade ou sentido, mas também
quando "nos lança ao eterno retorno"; o que o autor de Zaratustra faz
é muito mais do que ressignificar o pensamento schopenhauriano, ele traz à tona
uma discussão acerca de como a vontade fundamental da vida pode nos levar ao
sentido da própria vida. Parece, à princípio, uma contradição do pensamento
nietzschiano, mas o mergulho no eterno retorno torna possível esta conclusão.
Os impulsos advindos da vontade de potência relacionam-se de diversos modos no
universo e a todo o momento essa vontade faz surgir novas formas de vontades, a
partir daí, o mundo apresenta-se como um devir, em que, a cada alteração
segue-se uma outra; é um eterno vir-a-ser. Na visão de Nietzsche, o ser é devir
porque está sempre se fazendo, sempre por fazer, resultando num processo
eterno.
Fato é que, "o homem prefere querer o nada ao nada querer; a
vontade de nada e a revolta contra as condições fundamentais da vida, ainda é
vontade de potência, porque permite dar um sentido à vida e à própria
vontade." O ser humano comum não se atenta a essas questões, pouco se lhe
importa o sentido da vida, mas o sujeito de sensibilidade aguçada não se
contenta em estar nesse mundo sem saber qual a sua razão; a vida haveria de ter
um sentido? Schopenhauer diz que "viver é sofrer".
O simplório não tem a consciência do viver, ele apenas existe nesse
mundo como outra coisa inanimada qualquer, mas o homem dado à sensibilidade, a
quem Aristóteles chama de "indivíduo excelente e superior", sempre se
questiona sobre o significado da vida, ele possui a consciência da ausência de
sentido e, por isso, ele sofre tanto de uma melancolia profunda. Seria a
"dor de ideia"?
Talvez seja apenas a consciência de que o único sentido da vida é o
viver.
PERDAS E DESENCONTROS
Quantas vezes na nossa vida enfrentamos a perda de algo ou alguém que
amamos? Quantos sonhos desfeitos? Quantos projetos irrealizados? Quantas
pessoas mortas, ou simplesmente distantes? São acontecimentos dolorosos, mas
comuns e recorrentes na vida de todo ser humano; a questão é: como lidamos com
essas perdas? Freud faz uma discussão interessante a esse respeito no texto
“Luto e Melancolia”. Pretendo aqui, fazer uma breve divagação (sim, é esta a palavra)
sobre os conceitos de luto e melancolia e a forma como o sujeito lida com esses
dois afetos, mais precisamente, estados da psiqué.
Segundo Freud, o luto é a reação à perda de um ente querido ou à perda
de alguma abstração que tenha ocupado o lugar de um ente querido, como o país,
a liberdade ou o ideal de alguém, no entanto, essas mesmas perdas produzem
melancolia em algumas pessoas, em vez de luto; a diferença estaria em que, a
melancolia causa um desânimo profundamente penoso, o sujeito perde o interesse
pelo mundo externo, torna-se incapaz de amar e apresenta uma diminuição
considerável, senão completa, dos sentimentos de auto-estima, culminando numa
expectativa delirante de punição; enquanto no luto, embora estejam presentes o
mesmo desânimo e desinteresse pelo mundo, não há a perturbação da auto-estima.
Não se faz necessário expor aqui o trabalho que o luto e a melancolia
realizam, uma vez que o propósito é tão somente discorrer sobre os seus
conceitos, contudo, há que se ressaltar a natureza das perdas que geram tais
estados de alma. Enquanto o luto consiste numa perda de natureza real, ou seja,
o objeto de amor não mais existe, na melancolia a perda é de natureza mais
ideal, o objeto continua a existir, apenas não existe mais enquanto objeto de amor.
Outra característica divergente entre a melancolia e o luto, que acredito ser a
causa de toda a morbidez desse primeiro estado, é que no luto o sujeito sabe o
que ou quem se perdeu, ao passo que na melancolia o sujeito sabe que se perdeu
algo, mas não sabe e não pode, de modo consciente, perceber o que é esse objeto
de amor. Permitam-me explicar; o sujeito até sabe o que ou quem se perdeu, mas
não consegue ver o que de fato se perdeu nesse objeto, como se a pessoa amasse
não o objeto em si mesmo, mas algo que esse objeto reflete ou representa; muito
mais que uma perda consciente, existe uma perda inconsciente, diferentemente do
luto em que a perda é apenas consciente.
Acredito que essa diferença se dá pelo fato de haver uma transferência,
ou seja, na melancolia o sujeito identifica-se com o objeto, embora Freud não
afirme isso explicitamente (são palavras minhas, corretas ou não, e por isso
chamo de “divagação”); meu argumento está em que, no luto é o mundo que se
torna vazio, e na melancolia o próprio ego se torna vazio, o ego e o objeto de
amor se tornam um só, portanto, quando se perde o objeto, o próprio “eu” se
perde. Dessa forma, as auto-acusações que o sujeito melancólico faz a si mesmo
se tratam de acusações feitas a um objeto amado perdido, que foram deslocadas
desse objeto para o próprio ego.
Para explicitar melhor, faço uma breve tentativa de reconstruir o
processo que ocorre desde a escolha do objeto amado a sua perda. Num dado
momento, ocorre uma escolha objetal, em que a libido é totalmente direcionada
ao objeto de amor, proporcionando uma ligação libidinal, porém, devido a uma
decepção proveniente desse objeto, a relação libidinal sujeito-objeto amado
acaba por se destruir. O normal após essa quebra libidinal seria uma retirada
da libido desse objeto e seu deslocamento para um novo objeto de amor (é
praticamente esse o trabalho que o luto faz), contudo, na melancolia a libido
se desloca para o ego e não para um novo objeto, provocando assim os
sentimentos de auto-acusação e auto-punição, que muitas vezes resultam no
suicídio.
Não é uma tarefa fácil resolver estes conflitos psicológicos após uma
perda, alguns superam e conseguem eleger um novo objeto de amor, outros,
infelizmente, encontram o suicídio como saída, e há aqueles que, embora não sejam
capazes de deslocar a libido para um novo objeto, encontram formas de sublimar
os sentimentos de auto-recriminação; uns na música, alguns na pintura, outros
na literatura, em suma, a arte é perfeita forma de sublimação. Eu encontro
meios de sobreviver nas divagações que faço por aqui... mas, como eu sempre
digo, são apenas divagações, o importante é sobreviver!
O APOCALIPSE DO SEM-SENTIDO
Haverá
o dia em que as ostras comerão os caracóis em suas cascas, como irmãos de
infortúnio que são. Tudo há de se transformar, e o próprio Universo há de se
tornar alguma coisa muito diferente do que é hoje em dia. Eis o apocalipse do
sem-sentido.
Quando
estamos todos à beira de um caos sem precedentes, o importante é que os
caramujos abstenham-se de discussões infundadas sobre a arte e o processo
criativo, pois isso não os levará a nada além de um tédio enorme e triste.
Ademais, que criação pode insurgir de seres nojentos? Que sabe a lesma ou os
porcos sobre a arte? Resta-lhes que filosofia, além da filosofia que nos
deixam? Os caramujos passam gosmentos pelo chão e deixam rastros brilhantes,
como pegadas de um sucesso passado, mas o que eles sabem sobre a filosofia da
gosma que fica? Sua filosofia é não ter filosofia, como tudo que há. O homem,
invejoso de ser bicho, filosofa, cria verdades sobre as coisas, significações
para uma gosma que nada significa, cria impressões sobre uma realidade inerte e
mergulha no profundo tédio do sem-sentido.
Mas,
por hora, os tempos continuam os mesmos. A arte não serve para os caramujos e
nem mesmo para as lesmas, que continuam traçando caminhos luminosos no chão do
mundo, sem atentarem para o fato de que sempre haverá alguém com um pincel na
mão, pronto para retratá-los. E ao retratá-los, lesmas e caramujos sentirão em
suas entranhas aqüosas que estão sendo objeto de observação de alguém ou de
alguma coisa que até então permanecera insuspeitada e, ao atingirem a
consciência disso, serão prisioneiros da vida e da arte.
Esperamos
que não se curvem a esta tirania desesperada que tentam impor-lhes. Deus estará
com eles nas catacumbas da insônia. E com a ajuda divina libertar-se-ão do
mundo da arte. As correntes que os prendem serão quebradas e os pobres
caramujos e as tristes lesmas estarão vazios de significados. Tomarão para si a
responsabilidade de serem tão somente caramujos e lesmas. E tudo o mais que
seja humano será apenas impressões do transcendente.
Perguntar-se-ão
se lesmas viram borboletas. E irão ouvir um relativo “quem sabe”, talvez no
melhor dos mundos isso possa acontecer, talvez dentro dos livros ou dos quadros
ou nas igrejas de orientação natural. Se isso for possível. Se lesmas e
borboletas fizerem parte de uma mesma origem. Desejarei também o melhor dos
mundos. Ansiarei pelos livros e pelos quadros. Mas odiarei as igrejas que
assassinam a liberdade do homem. E, qual uma lesma com asas, serei também capaz
de voar ... rumo à liberdade das significações.
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