Muitas teorias filosóficas tentam explicar ou compreender o sentido da
vida. Tomo aqui como fundamento desta minha divagação os conceitos
Schopenhaurianos e Nietzschianos de "vontade", que entendo
(permitam-me os filósofos) como a raiz metafísica de toda realidade, em que a
vontade seria o princípio fundamental da natureza. Para Schopenhauer a vontade
é algo sem nenhuma meta ou finalidade, apenas um conceito irracional e
inconsciente, independente da sua representação; no entanto, é esta vontade que
anima a vida humana.
Em Nietzsche, temos um conceito de vontade amplificado, a chamada
"vontade de potência", que consiste na força originária que rege o
universo; o modo como se comporta aquilo que não pode ter finalidade ou sentido
e que vive as custas de si mesmo.
É importante atentarmo-nos para os conceitos supracitados a fim de
compreendermos a visão crítica que pretendo expor aqui. Diante dos conceitos de
vontade propostos pelos filósofos (entenda-se "vontade", aqui, como
fundamento da existência), pergunto-me: "a
vida seria um acidente absurdo?" ou ainda: qual será o sentido da vida? Ao deperarmo-nos com o pensamento Schopenhauriano, concluímos que
viver se resume apenas na objetivização da vontade, em que o real é em si mesmo
cego e irracional. Fenômenos como política, cultura e tantas outras
manifestações do ser humano são apenas representações da vontade primeva que
compõe a essência da realidade, vontade esta que é vazia de significado, mas
que ocorre devido a sua naturalidade inconsciente.
Portanto, admitir que a vida é um mero acidente absurdo, significa
admitir que ela não parte dessa vontade natural inconsciente, mas de algo ou de
alguma outra força criadora que tenha se enganado no "percurso
criador", já que "acidente" pressupõe intencionalidade. A vida
não é fruto de uma criação intencional ou do desvio dessa criação, mas da própria
força originária de criação da vontade; da própria realidade das coisas.
Nietzsche vem corroborar esta ideia, não apenas quando confirma a
vontade de potência como conceito vazio de finalidade ou sentido, mas também
quando "nos lança ao eterno retorno"; o que o autor de Zaratustra faz
é muito mais do que ressignificar o pensamento schopenhauriano, ele traz à tona
uma discussão acerca de como a vontade fundamental da vida pode nos levar ao
sentido da própria vida. Parece, à princípio, uma contradição do pensamento
nietzschiano, mas o mergulho no eterno retorno torna possível esta conclusão.
Os impulsos advindos da vontade de potência relacionam-se de diversos modos no
universo e a todo o momento essa vontade faz surgir novas formas de vontades, a
partir daí, o mundo apresenta-se como um devir, em que, a cada alteração
segue-se uma outra; é um eterno vir-a-ser. Na visão de Nietzsche, o ser é devir
porque está sempre se fazendo, sempre por fazer, resultando num processo
eterno.
Fato é que, "o homem prefere querer o nada ao nada querer; a
vontade de nada e a revolta contra as condições fundamentais da vida, ainda é
vontade de potência, porque permite dar um sentido à vida e à própria
vontade." O ser humano comum não se atenta a essas questões, pouco se lhe
importa o sentido da vida, mas o sujeito de sensibilidade aguçada não se
contenta em estar nesse mundo sem saber qual a sua razão; a vida haveria de ter
um sentido? Schopenhauer diz que "viver é sofrer".
O simplório não tem a consciência do viver, ele apenas existe nesse
mundo como outra coisa inanimada qualquer, mas o homem dado à sensibilidade, a
quem Aristóteles chama de "indivíduo excelente e superior", sempre se
questiona sobre o significado da vida, ele possui a consciência da ausência de
sentido e, por isso, ele sofre tanto de uma melancolia profunda. Seria a
"dor de ideia"?
Talvez seja apenas a consciência de que o único sentido da vida é o
viver.