segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O APOCALIPSE DO SEM-SENTIDO


Haverá o dia em que as ostras comerão os caracóis em suas cascas, como irmãos de infortúnio que são. Tudo há de se transformar, e o próprio Universo há de se tornar alguma coisa muito diferente do que é hoje em dia. Eis o apocalipse do sem-sentido.

Quando estamos todos à beira de um caos sem precedentes, o importante é que os caramujos abstenham-se de discussões infundadas sobre a arte e o processo criativo, pois isso não os levará a nada além de um tédio enorme e triste. Ademais, que criação pode insurgir de seres nojentos? Que sabe a lesma ou os porcos sobre a arte? Resta-lhes que filosofia, além da filosofia que nos deixam? Os caramujos passam gosmentos pelo chão e deixam rastros brilhantes, como pegadas de um sucesso passado, mas o que eles sabem sobre a filosofia da gosma que fica? Sua filosofia é não ter filosofia, como tudo que há. O homem, invejoso de ser bicho, filosofa, cria verdades sobre as coisas, significações para uma gosma que nada significa, cria impressões sobre uma realidade inerte e mergulha no profundo tédio do sem-sentido.

Mas, por hora, os tempos continuam os mesmos. A arte não serve para os caramujos e nem mesmo para as lesmas, que continuam traçando caminhos luminosos no chão do mundo, sem atentarem para o fato de que sempre haverá alguém com um pincel na mão, pronto para retratá-los. E ao retratá-los, lesmas e caramujos sentirão em suas entranhas aqüosas que estão sendo objeto de observação de alguém ou de alguma coisa que até então permanecera insuspeitada e, ao atingirem a consciência disso, serão prisioneiros da vida e da arte.

Esperamos que não se curvem a esta tirania desesperada que tentam impor-lhes. Deus estará com eles nas catacumbas da insônia. E com a ajuda divina libertar-se-ão do mundo da arte. As correntes que os prendem serão quebradas e os pobres caramujos e as tristes lesmas estarão vazios de significados. Tomarão para si a responsabilidade de serem tão somente caramujos e lesmas. E tudo o mais que seja humano será apenas impressões do transcendente.

Perguntar-se-ão se lesmas viram borboletas. E irão ouvir um relativo “quem sabe”, talvez no melhor dos mundos isso possa acontecer, talvez dentro dos livros ou dos quadros ou nas igrejas de orientação natural. Se isso for possível. Se lesmas e borboletas fizerem parte de uma mesma origem. Desejarei também o melhor dos mundos. Ansiarei pelos livros e pelos quadros. Mas odiarei as igrejas que assassinam a liberdade do homem. E, qual uma lesma com asas, serei também capaz de voar ... rumo à liberdade das significações.

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