segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

PERDAS E DESENCONTROS


Quantas vezes na nossa vida enfrentamos a perda de algo ou alguém que amamos? Quantos sonhos desfeitos? Quantos projetos irrealizados? Quantas pessoas mortas, ou simplesmente distantes? São acontecimentos dolorosos, mas comuns e recorrentes na vida de todo ser humano; a questão é: como lidamos com essas perdas? Freud faz uma discussão interessante a esse respeito no texto “Luto e Melancolia”. Pretendo aqui, fazer uma breve divagação (sim, é esta a palavra) sobre os conceitos de luto e melancolia e a forma como o sujeito lida com esses dois afetos, mais precisamente, estados da psiqué.

Segundo Freud, o luto é a reação à perda de um ente querido ou à perda de alguma abstração que tenha ocupado o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, no entanto, essas mesmas perdas produzem melancolia em algumas pessoas, em vez de luto; a diferença estaria em que, a melancolia causa um desânimo profundamente penoso, o sujeito perde o interesse pelo mundo externo, torna-se incapaz de amar e apresenta uma diminuição considerável, senão completa, dos sentimentos de auto-estima, culminando numa expectativa delirante de punição; enquanto no luto, embora estejam presentes o mesmo desânimo e desinteresse pelo mundo, não há a perturbação da auto-estima.

Não se faz necessário expor aqui o trabalho que o luto e a melancolia realizam, uma vez que o propósito é tão somente discorrer sobre os seus conceitos, contudo, há que se ressaltar a natureza das perdas que geram tais estados de alma. Enquanto o luto consiste numa perda de natureza real, ou seja, o objeto de amor não mais existe, na melancolia a perda é de natureza mais ideal, o objeto continua a existir, apenas não existe mais enquanto objeto de amor. Outra característica divergente entre a melancolia e o luto, que acredito ser a causa de toda a morbidez desse primeiro estado, é que no luto o sujeito sabe o que ou quem se perdeu, ao passo que na melancolia o sujeito sabe que se perdeu algo, mas não sabe e não pode, de modo consciente, perceber o que é esse objeto de amor. Permitam-me explicar; o sujeito até sabe o que ou quem se perdeu, mas não consegue ver o que de fato se perdeu nesse objeto, como se a pessoa amasse não o objeto em si mesmo, mas algo que esse objeto reflete ou representa; muito mais que uma perda consciente, existe uma perda inconsciente, diferentemente do luto em que a perda é apenas consciente.

Acredito que essa diferença se dá pelo fato de haver uma transferência, ou seja, na melancolia o sujeito identifica-se com o objeto, embora Freud não afirme isso explicitamente (são palavras minhas, corretas ou não, e por isso chamo de “divagação”); meu argumento está em que, no luto é o mundo que se torna vazio, e na melancolia o próprio ego se torna vazio, o ego e o objeto de amor se tornam um só, portanto, quando se perde o objeto, o próprio “eu” se perde. Dessa forma, as auto-acusações que o sujeito melancólico faz a si mesmo se tratam de acusações feitas a um objeto amado perdido, que foram deslocadas desse objeto para o próprio ego.

Para explicitar melhor, faço uma breve tentativa de reconstruir o processo que ocorre desde a escolha do objeto amado a sua perda. Num dado momento, ocorre uma escolha objetal, em que a libido é totalmente direcionada ao objeto de amor, proporcionando uma ligação libidinal, porém, devido a uma decepção proveniente desse objeto, a relação libidinal sujeito-objeto amado acaba por se destruir. O normal após essa quebra libidinal seria uma retirada da libido desse objeto e seu deslocamento para um novo objeto de amor (é praticamente esse o trabalho que o luto faz), contudo, na melancolia a libido se desloca para o ego e não para um novo objeto, provocando assim os sentimentos de auto-acusação e auto-punição, que muitas vezes resultam no suicídio.

Não é uma tarefa fácil resolver estes conflitos psicológicos após uma perda, alguns superam e conseguem eleger um novo objeto de amor, outros, infelizmente, encontram o suicídio como saída, e há aqueles que, embora não sejam capazes de deslocar a libido para um novo objeto, encontram formas de sublimar os sentimentos de auto-recriminação; uns na música, alguns na pintura, outros na literatura, em suma, a arte é perfeita forma de sublimação. Eu encontro meios de sobreviver nas divagações que faço por aqui... mas, como eu sempre digo, são apenas divagações, o importante é sobreviver!

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