Preciso escrever uma carta, mas as
palavras se sufocam na garganta de minha caneta. É que se faz difícil
dizer, sobretudo quando o que digo não pode fazer a mínima diferença.
Certa vez, indiretamente, me disseram que eu deveria começar uma carta assim: -
"tocando na dificuldade real de se escrever uma carta" -, eu então
pensei: oras, quem teria dificuldades de escrever uma carta?! ... realmente
pensei... até agora... até me dar conta de que algumas coisas simples também
podem ser complicadas, e que o exercício de uma carta pode se transformar
numa grande epopeia homérica - nesse caso, encontro-me em desvantagem,
pois me faltam as musas inspiradoras e o feito heroico que contar. Se
eu concluísse uma carta, faria uma epopeia sobre o grande feito heroico de se concluir
uma carta. Mas, realmente me parece uma odisseia ter que escrever. Dizer as
palavras certas do jeito errado é tão inútil quanto dizer as palavras
erradas do jeito certo, e eu, que não sou versada em coisas certas a dizer
e muito menos no modo como devem ser ditas, acabo por abortar minhas falas pela
metade. Gagueira permanente no bico da caneta resulta em cartas
inacabadas esquecidas em velhas caixas. Eu guardo muitas gagueiras em
caixas empoeiradas. Entulho de palavras que se negam a dizer. Certa vez, em
determinada carta, eu disse que a urgência da palavra é lâmina cortante em
tempos de mudez; aqui, no entanto, os tempos de mudez é que se
transformaram em lâminas cortantes da palavra. E nesta dúvida de como
dizer o que dizer, as cartas inacabadas se encaixotaram sem pertencimentos.
Penso. Se por um lado uma carta ainda por remeter pertence ao autor, a quem
pertenceria uma carta já remetida? Lejeune me responde
que pertenceria ao destinatário. Mas, a questão aqui é mais sobre a
propriedade do discurso do que a posse do objeto-carta. Então, mesmo neste
segundo caso, o autor ainda seria o proprietário absoluto da carta, porque
o seu discurso lhe pertence. No meu caso, que me perdoe Lejeune, as
cartas inacabadas me pertencem sem serem minhas. Guardadas em caixas
empoeiradas, elas viram entulho de palavras, propriedade de ninguém, a
menos que sejam concluídas e enviadas. Concluir uma carta, nestes tempos de
mudez, seria para mim como aportar em Ítaca, e dizer as palavras certas do
modo certo seria mais ou menos a certeza de encontrar Penélope a minha espera.
Seria um alento saber que nos tempos de muda ausência ela esteve a
desfazer o tapete das palavras erradas.
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